Por Eduardo Morelli
Como o esperado e até mesmo antecipado nos últimos cinco anos, a onda de apropriação do poder por parte do Capital financeiro e da Direita em diversos países latino-americanos (e em outros países do Mundo globalizado) já começa a encontrar os obstáculos intransponíveis previstos.
O quadro político em nível planetário pode mergulhar num encadeamento de rebeliões sem paralelos. Esse novo horizonte de eventos é aguardado tanto nos países da periferia quanto nos do centro. Em perspectiva há o aprofundamento até certo ponto inédito da atual crise capitalista global – que a partir de 2019 – adentrou numa etapa mais aguda e terminal. Os próprios economistas de mercado já não dormem mais tranquilamente ao verem a possibilidade de não encontrarem brechas de crescimento econômico diante dos números apresentados por algumas economias em desaceleração como China e EUA. Embora alguns economistas de mercado falem em um “ciclo” como o de 2008 que seria mais dia menos dia “superado”, muitos outros já demonstram com dados reais que a saída dessa crise (que aliás é a continuação do choque de 2008) pode não ter válvula de escape conhecida pelos dispositivos tradicionais – ou seja – pelos regimes que dissimulam uma Democracia mais ou menos pacífica. A preocupação também por parte das potências industriais do Mundo como EUA e Alemanha é com a falta de algum fato que consiga dar “reset” no sistema, ou seja, a ausência de uma guerra mais abrangente que possa queimar a superprodução de capital e evitar o colapso do sistema.
Na América Latina, o mal estar da população já é visível e já aponta para uma situação de impasse futuro. Isso já é perceptível até mesmo no Brasil. Embora haja paralisia da população em relação a um governo de ataque declarado aos aspectos basilares da civilização, ou seja, onde não só ocorre a destruição da natureza de modo aberto, despudorado, como também a exploração da população assalariada de forma amplamente descarada, a paralisia dará lugar em algum momento futuro a uma explosão de ânimos que pode não ser devidamente contida como aquela das jornadas de Junho de 2013.
A insatisfação popular com a nova onda neoliberal na América Latina já dá as caras em nações vizinhas. O Equador viu a explosão de sua população no início de Outubro quando o país golpeado em 2017 por facções neoliberais firmou compromissos com o Fundo Monetário Internacional no sentido de esfolar o povo e privatizar tudo que restava do país para os tubarões do Capital internacional. A gota d’água foi o aumento de 123% dos combustíveis. Embora as manifestações tenham sido grandes o bastante para o usurpador Lenín Moreno recuar no aumento dos combustíveis, o governo ainda não caiu. Esse fato é importante de ser analisado porque quando a “maré azul” foi iniciada no continente, ou seja, a onda de assaltos ao poder por parte da direita, o objetivo não era o de abandonar o poder tão cedo. Há toda a indicação de que a “maré azul” pretende se perpetuar por meios de exceção, sendo que o único freio possível para essa violência é a organização de luta da população.
Os EUA impuseram um novo código de conduta em suas colônias latino-americanas onde não há espaço para negociar, muito menos ceder. O problema até certa medida inesperado é que o povo do Equador perdeu a “esportiva” mais cedo do que o planejado. No Brasil, esse impulso da direita em não ceder terreno fica muito evidente no caso da prisão ilegal do ex-presidente Lula, que permanece preso sem amparo da constituição e sem ao menos comprovação de crime cometido. Esse fato revela que a direita se preocupa com a instabilidade social decorrente de um Lula solto em meio a um governo terceirizado para esfolar o povo. Uma livre circulação de Lula pelo Brasil poderia facilmente desencadear um crise política enorme no Brasil – mesmo que Lula seja um conciliador, um negociador de tensões.
As Forças Armadas sabem dos riscos presentes e joga com os seus recursos atuais mantidos ainda numa esfera de indiretas, via redes sociais ou via imprensa. O problema é que a terceirização das instâncias judiciais ainda é um fato complexo, o que força os militares a considerarem um Golpe de Estado futuro. As Forças Armadas, em todas as nações do Planeta Terra são a última garantia possível que as burguesias tem à disposição para controlar os ânimos. O problema neste caso é que querer não é o mesmo que poder. A operação “de volta a 1964” não é tão simples como imaginado.
Na Argentina, outro país explosivo e complexo como o Brasil, a situação de insatisfação generalizada com o governo neoliberal de Maurício Macri já se manifesta com grande desenvoltura via legal. As eleições deram a vitória ao bloco Kirchnerista. Este fato é curioso porque como mencionado, a direita continental não está disposta a ceder, mas quando o assunto é um país de forte organização política do povo, talvez esta seja uma possibilidade temporária pequena. Ainda assim não é possível cravar que o governo de Alberto Fernández venha a tomar a rota totalmente contrária daquela do Macri. Não há ainda elementos para saber se o bloco Kirchnerista é uníssono o bastante para não ser cooptado pelo capital internacional. Em outras palavras, existe a possibilidade de que a direita neoliberal ainda tenha a situação do país sob controle.
No México, a Direita cedeu abertamente para a ascensão de AMLO (Andrés Manuel Lopez Obrador) em 2018, entretanto se não o fizesse, o país mergulharia em caos e revolta no quintal dos EUA num momento que isso não é desejado. Não existe a menor garantia que o México não seja o foco de golpes de estado da direita em futuro próximo – ainda mais se considerarmos que não se sabe exatamente o papel desempenhado pelos poderosos narcotraficantes mexicanos que detém uma participação ampla na vida política do país. Seriam os carteis mexicanos aliados da direita neoliberal? Há essa suspeita no ar da mesma maneira que os brasileiros estão descobrindo que as milícias são aliadas não só da burguesia brasileira como possivelmente do imperialismo de conjunto.
Na Bolívia, a reeleição de Evo Morales foi permitida com restrições. Já há a movimentação por parte da OEA de emplacar a mesma política de golpe aplicada na Venezuela contra o governo Maduro. Nos demais países, a conquista política da Direita tende a se manter a não ser que o povo tome a atitude dos chilenos.
No Chile há uma rebelião nacional contra Sebastián Piñera. O quadro político e econômico chileno é ainda mais crítico e delicado do que outros países porque o país é o laboratório de experiências neoliberais radicais desde a ditadura Pinochet. O Chile é conhecido mundialmente por ter sido o primeiro do país do mundo a adotar medidas neoliberais na sua economia com uma ditadura militar sanguinária. Aliás, o choque neoliberal do Chile só poderia ter sido emplacado numa ditadura. A revolta atual dos chilenos é muito mais abrangente e histórica do que apenas os acontecimentos dos últimos 5 anos na América Latina. A insatisfação chilena é uma experiência histórica de ao menos 40 anos que só agora está emergindo, daí o teor revolucionário das manifestações.
Piñera irá ceder? As forças armadas do Chile estão ainda relutantes em dar um golpe de estado para controlar os ânimos pelos mesmos motivos do Brasil, ou seja, não há garantia de tranquilidade – mesmo com um golpe militar. Resta a Piñera tentar ceder até acalmar o povo – fato este muito difícil. Se continuarmos nesse ritmo, o governo deve cair em breve.
A única preocupação real a ser mencionada sobre o país vizinho é a ausência de um direcionamento das massas. Manifestações sem rumo tendem a enfraquecer e serem instrumentalizadas pela direita, exatamente como ocorreu no Brasil em 2013. Diante do mal estar gerado pelo custo de vida nas grandes cidades do país, e um aumento abusivo no preço das tarifas de ônibus e metrô, a população se levantou contra o status quo, entretanto, o caráter anarquista e confusionista do movimento foi rapidamente neutralizado pela direita e por todo o aparato midiático no sentido de canalizar os ânimos contra o Partido dos Trabalhadores. Tão logo a poeira baixou e em 2014 a Operação Lava-Jato se inicia com o propósito de servir de plataforma para um engenhoso golpe de estado pela direita, obtido com sucesso em 2016.
É apenas uma questão de tempo para o Brasil mergulhar num caos econômico e social que levará a população a uma reação. Em nosso caso particular, há ainda todo o aprendizado acumulado dos anos anteriores onde houveram movimentos de resistência contra o golpe e contra a prisão política do ex-presidente Lula. Esse aprendizado sobre o modus operandi da direita deve ser aproveitado e somado às novas mobilizações futuras. Não discutimos mais se haverá ou não revolta popular no Brasil. As revoltas são inevitáveis diante de uma violência econômica absurda. Nenhum povo ao longo da história aceitou pacificamente grilhões e humilhações. Há sempre lutas e resistências. A questão é saber quando. Será 2020? Será 2021? Não sabemos. O aprofundamento da crise econômica mundial também é um fator a ser observado de perto. Até lá aprendemos pouco a pouco com a história.
José Eduardo Morelli
Professor formado em História, pós-graduado em História, Sociedade e Cultura e também em Filosofia e Pensamento Político Contemporâneo.

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